

EmÃlia estava pensativa.
- O que foi, minha filha?
- Por que você e a tia Aninha [minha irmã] não moram na mesma casa?
- Porque nós nos casamos com nossos namorados e fomos morar com eles, cada uma em sua casa.
Ela fez cara de tristeza. E prosseguiu:
-Mamãe, um menino pode ter duas namoradas?
- Bem, o esperado é que ele tenha só uma.
Então minha filhota abriu o berreiro. Eu perguntei o que tinha motivado aquele chororô todo e ela explicou:
- Eu quero morar com a Lilice pra sempre! Quero que a gente tenha o mesmo namorado!
É claro que não pude deixar de rir com a solução que ela encontrou para nunca sair de perto da irmã, e quanto mais eu ria, mais ela chorava, como se protestasse pelo fato de eu achar graça de uma situação tão dramática. Como assim um dia morar longe da irmã?
A paixão da EmÃlia pela irmã caçula é comovente. E, por vezes, assustadora. Agora que Alice completou um mês a situação está mais controlada, mas nos primeiros dias estive pra ficar doida. O afeto de uma criança de cinco anos pode ser incrivelmente perigoso. EmÃlia simplesmente se jogava por sobre o corpinho miúdo da Alice, beijava-lhe as bochechas com sofreguidão e, pesadelo dos pesadelos, pulava em cima da cama quando eu estava trocando as fraldas da bebê.
- Pára, EmÃlia, você vai acabar pulando no pescoço da sua irmã! Não espirra no rosto dela! Não puxa o braço com força! Não, ela ainda não pode comer pão!
- Que chato, mamãe, tudo nessa casa é não.
Nas primeiras noites, depois de botar EmÃlia para dormir, tive muitas crises de choro motivadas pela culpa. Temia estar dispensando pouca atenção para a minha primogênita e, pior, dar a ela a impressão de que agora só me preocupo com Alice. Como todas as crianças que ganham um irmão mais novo, EmÃlia teve aqueles comportamentos tÃpicos – passou a falar com voz de bebê e até gosta de fingir que está mamando no meu peito. Chega a ser engraçado.
Mas agora, passado um mês, a situação está de fato mais controlada. A avidez pela novidade está sendo trocada pelo carinho mais brando. E EmÃlia começa a gostar da idéia de ser uma mocinha, a irmã mais velha, a ajudante que, nas horas de sufoco, sai correndo pelo corredor para me socorrer com uma fralda limpa ou uma toalha seca.
Eu ainda estou muito cansada, naquele estado que as mães conhecem bem – especialmente as que moram longe da famÃlia e não tem muito a quem recorrer na hora do aperto. Também estou particularmente enjoada da clausura doméstica. Mas vai passar. Em breve, estarei lépida e faceira pela cidade, com uma menininha em cada mão, toda orgulhosa de ter feito duas criaturinhas tão lindas.
Este foi meu último post. Agora vou cuidar das minhas filhotas e aproveitar os meses que me restam de licença-maternidade para paparicar muito as duas. Obrigada a todas pelos comentários gentis que me foram endereçados. Li todos, todos.
A todas vocês que são, serão ou sonham em ser mães, muitas felicidades. E que todas nós criemos filhos que sejam gentis, tolerantes e que estejam sempre dispostos a dar uma mão para quem precise de ajuda. Além, claro, de lindos e bochechudos.
Um beijo,
Adriana
Adriana Negreiros, 34 anos, é jornalista e editora da Revista PLAYBOY, da Editora Abril. É mãe de Emília, 4 anos, uma menina tão sapeca quanto a personagem do Monteiro Lobato. O pai da bonequinha é Lira Neto, 45 anos, jornalista e autor de biografias, como Maysa - Só numa Multidão de Amores. O próximo livro dele, sobre o Padre Cícero, vai nascer em Junho, junto com a Alice - que enquanto isso se diverte dando cambalhotas na barriga da Adriana.
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